30 de março de 2009

Teoria do decrescimento. Carlos Taibo

Em defesa do decrescimento

A visom dominante nas sociedades opulentas sugere que o crescimento económico é a panaceia que resolve todos os males. Ao seu agarimo –diz-se-nos- a coesom social asenta, os serviços públicos mantenhem-se, e o desemprego e a desigualdade nom ganham terreno. Sobejam as razons para recear, porém, de todo o antedito. O crescimento económico nom gera –ou nom gera necessariamente- coesom social, provoca agressons ambientais em muitos casos irreversíveis, propicia o esgotamento de recursos escassos que nom estarám à disposiçom das geraçons vindeiras e, enfim, permite o triunfo de um modo de vida escravo que convida a pensar que seremos mais felizes quantas mais horas trabalhemos, mais dinheiro ganhemos e, especialmente, mais bens consigamos consumir.

Frente a isto som muitas as razons para contestar o progresso, mais aparente do que real, que protagonizou as nossas sociedades durante decénios. Pense-se que em EUA, onde a renda per cápita se triplicou desde o final da segunda guerra mundial, desde 1960 reduze-se, porém, a porcentagem de cidadáns que declaram sentir-se satisfeitos. Em 2005 49% dos norte-americanos estimava que a felicidade se achava em retrocesso, frente um 26% que considerava o contrário. Muitos expertos concluem, em soma, que o incremento na esperança de vida ao nascer registrado nos últimos decénios bem pode estar a tocar aos seu fim num cenário lastrado pola obesidade, o estrés, a apariçom de novas doenças e a poluiçom.

Assim as cousas, nos países ricos há que reduzir a produçom e o consumo porque vivemos por cima das nossas possibilidades, porque é urgente cortar emissons que danam perigosamente o meio e porque começam a faltar matérias primas vitais. Por trás desses imperativos desponta um problema central: o dos limites naturais e de recursos do planeta. Se é evidente que, em caso de que um indivíduo extraia do seu capital, e nom das suas receitas, a maioria dos recursos que utiliza, isso conduzirá à quebra, parece surpreendente que nom se empregue o mesmo razoamento à hora de sopesar o que as sociedades ocidentais estám a fazer com os recursos naturais. Para calibrar a fondura do problema, o melhor indicador é a pegada ecológica, que mede a superfície do planeta, terreste como marítima, que precisamos para manter as actividades económicas. Se em 2004 essa pegada o era de 1,25 planetas Terra, segundo muitos prognósticos alcançará duas Terras –se tal é imaginável- em 2050. A pegada ecológica igualou a biocapacidade do planeta por volta de 1980, e triplicou-se entre 1960 e 2003.

Bem certo que nom é suficiente, claro, com acometer reduçons nos níveis de produçom e de consumo. É precisso reorganizar as nossas sociedades sobre a base de outros valores que reclamem o triunfo da vida social, do altruísmo e da redistribuiçom dos recursos frente à propriedade e ao consumo ilimitado. Há que reivindicar, em paralelo, o lezer frente ao trabalho obsessivo, como há que postular o reparto do trabalho, umha velha prática sindical que, infelizmente, foi caindo no esquecimento. Outras exigências ineludíveis falam-nos da necessidade de reduzir as dimensons das infraestruturas produtivas, administrativas e de transporte, e de primar o local frente o global num cenário marcado, em resumo, pola sobriedade e a simplicidade voluntária.

Falando em prata, o primeiro que as sociedades opulentas devem tomar em consideraçom é a conveniência de fechar –ou ao menos de reduzir sensivelmente a actividade correspondente- muitos dos complexos fabris hoje existentes. Estamos a pensar, como nom, na indústria militar, na automobilística, na da aviaçom e em boa parte da da construçom. Os milhons de trabalhadores que, de resultas, perderiam os seus empregos deveriam encontrar acomodo por meio de dous grandes cauces. Se o primeiro o achegaria o desenvolvimento de ingentes actividades relacionadas com a satisfaçom de necessidades sociais e ambientais, o segundo chegaria da mao do reparto do trabalho nos sectores económicos tradicionais que sobreviveriam. Importa sublinhar que neste caso a reduçom da jornada laboral bem poderia levar aparelhada, por que nom, reduçons salariais, sempre e quando estas, claro, nom o fossem em proveito dos lucros empresariais. No fim das contas, a ganáncia de nível de vida que se derivaria de trabalhar menos, e de desfrutar de melhores serviços sociais e de um entorno mais limpo e menos agressivo, somaria-se à derivada da assunçom plena da conveniência de consumir, também, menos, com a conseguinte reduçom de necessidades no que a receitas se refere. Nom é precisso agregar –parece- que as reduçons salariais que nos ocupam nom afectarám, naturalmente, a quem menos tenhem.

O decrescimento nom implicaria, para a maioria dos habitantes, um deterioro das condiçons de vida. Antes bem, deve acarrear melhoras substanciais como as vinculadas com a redistribuiçom dos recursos, a criaçom de novos sectores, a preservaçom do meio natural, o benestar das geraçons futuras, a saúde dos cidadaos, as condiçons do trabalho assalariado ou o crescimento relacional em sociedades em que o tempo de trabalho se reduzirá sensivelmente. À margem do anterior, convém sublinhar que no mundo rico se fam valer elementos –assim, a presença de infraestruturas em muitos ámbitos, a satisfaçom de necessidades elementais ou o próprio decrescimento da populaçom- que facilitariam o tránsito para umha sociedade distinta. E é que há que partir da certeza de que, se nom decrescemos voluntária e racionalmente, teremos que o fazer obrigados a conseqüência do fundimento, antes ou depois, da ilogicidade económica e social que padecemos.

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